E depois do fogo-de-artifício?

É absolutamente fantástico não ter de esperar pela meia-noite para ver fogo-de-artifício para onde quer que olhes. Desde o pôr-do-sol que muitas famílias saem à rua para lançar 2 ou 3 foguetes. Alguns fazem mesmo pausas no jantar, lançam uns foguetitos, e voltam para o quentinho das casas. Mesmo nas aldeias, é difícil não assistir a espetáculos de pirotecnia na altura de celebrar a entrada do novo ano.

Com isto, é quase irónico pensar que em Portugal teríamos de ir à Madeira para ver 10 minutos de fogo-de-artifício. Aqui, é difícil ter uma pausa de 10 minutos sem ter uma explosão de luz a menos de 5 km.

Conclusão: Venham à Dinamarca na Passagem de Ano!

Mas nem tudo são rosas. Apesar dos municípios praticamente não gastarem orçamento público em fogo-de-artifício, existe uma desresponsabilidade generalizada no que toca ao pós-festa. Lixo. Muitas caixas e restos de uma noite de folia são encontrados por todas as ruas. É compreensível que “ah e tal, bebedeira e cenas, não apetece limpar depois”, mas não serve de justificação.

Outro aspeto negativo é a quantidade de pessoas que acabam por recorrer aos hospitais por acidentes com os explosivos. Este ano foram cerca de 267 o número de acidentes, o que se torna alarmante quando um terço destes têm menos de 15 anos.

Fogo-de-artifício

No outro dia liguei para a Polícia. Nada de especial, só para alertar que uns miúdos andavam a perturbar a calmaria das ruas, e a assustar as pessoas com bombinhas e estalinhos.

Parece que é prática comum comprar montes de artigos de fogo de artifício para festejar a época. Qualquer supermercado oferece uma extensa variedade de produtos, mas apesar de ser necessário ter 18 anos para poder adquirir estes artigos, muitos miúdos brincam pelas ruas com material explosivo. Contudo, consta que os acidentes registados são mínimos. No ano passado, foram identificadas duas vítimas mortais em todo o país devido a material defeituoso. Em 2004, uma fábrica de fogo-de-artifício no sul da Jutlândia foi destruída, resultando num dos maiores acidentes dos últimos tempos.

O que é certo é que toda a cidade se ilumina na Passagem de Ano, e dizem ser um espectáculo que vale a pena. Portanto, vós que estais na Praça do Comércio com dificuldades móveis e respiratórias devido à afluência de gente, vinde até ao norte e comprai o seu próprio kit de efeitos luminosos. Parece bastante mais divertido que procurar estacionamento durante 2 horas e sofrer de esmagamento dos dedos dos pés.

Como é o Natal de uma família Dinamarquesa?

Finalmente chegou. O tão aguardado dia, ou melhor, dias de Natal. A Consoada é o momento em família mais aguardado de toda a época, repleta de pequenas tradições e pratos especiais. E nos restantes dias (sim, porque o Natal se estende até ao dia 26 de Dezembro) o importante é aproveitar a vida.

No 24 de Dezembro, apesar de não ser feriado, maior parte das pessoas estão focadas nos últimos preparativos para apreciar a noite em família. Disse noite? Calma, maior parte das famílias encontram-se a meio da tarde e jantam às 18h, o que significa que se tivesses de esperar pela meia-noite para abrir os presentes haveria provavelmente umas sestas pelo meio e seria necessária uma segunda mesa de mostras gastronómicas.

julemadA mesa da Consoada é farta, e com uma grande variedade de carnes deliciosas, como por exemplo pato recheado e flæskesteg (na fotografia). Outras coisas como as salsichas frescas de nome medister, rolo de fiambre fumado, couve roxa, batatas com molho doce, molho castanho, e muitas outras delícias.

A sobremesa é algo muito especial: Ris à la mandebasicamente um arroz-doce com pedaços de amêndoa e natas, e cerejas em calda por cima. Especial pela tradição que envolve: algures na taça está uma amêndoa inteira; quem encontrar a amêndoa recebe um presente. Duplamente delicioso!

Surpreendeu-me o facto de vinho do Porto ser uma presença quase obrigatória na mesa após o jantar. Para além disso, é um presente muito comum e apreciado, pelo que encontro variadíssimas marcas e tipos à venda no mais comum dos supermercados.

sangChega a hora de reunir a família junto da árvore de Natal. Ainda existem famílias que celebram o Natal com uma tradição de origem religiosa: cantar canções de Natal à roda da árvore. Depois deste momento (que se pode tornar bastante divertido, especialmente com crianças ou adultos disparatados), distribuem-se os presentes.

Tak for mad, tak for gaven, tak for i dag, e assim se passou uma muito agradável primeira Consoada na Dinamarca.

Os dias 25 e 26 são em geral outro dia para reunir a família, desta vez ao almoço. Mais uma dose extraordinária de comida e hygge, pois nada está aberto para fazer compras (nem mesmo alguns dos maiores supermercados). No entanto, sair à noite no dia 25 tornou-se um hábito para as camadas mais jovens, que se juntam para jantares em casas de amigos e beber (muito). Faz sentido, visto que no dia 26 podem ressacar o dia todo.

 

Tradições de Natal na Dinamarca, v.3

Existem imensas coisas típicas que se fazem na altura do Natal, que enchem toda a gente de alegria e conforto. Nas vilas e cidades não faltam os eventos e incentivos para fazer algo diferente: ora um Pai Natal que aparece às crianças, ora um pinheiro gigante prestes a ser iluminado por milhentos leds, ora um mercadinho de Natal aqui e ali, enfim. Coisas que distraem as pessoas do frenesim das compras e prendas de última hora.

Uma das coisas mais reconfortantes que se costuma fazer em família é pastelaria e biscoitos típicos da época. E a lista de possibilidades é longa:

pebernodder

Pebernødder – Pequeninos biscoitos super saborosos com diversas especiarias, entre as quais umas pitadas de pimenta branca, resultando num sabor intenso e viciante

 

brunekager

Brunekager – deliciosas e estaladiças bolachas à base de canela com pedaços de amêndoa, lembra as Pepparkakor do IKEA

 

klejner

Klejner – massa frita e à base de manteiga, farinha e especiarias, uma espécie de coscorões à moda dos países de norte

 

vanillekranse

Vanillekranse – biscoitos bem docinhos com sabor a baunilha e com pedaços de amêndoa, a forma de rosca dá-lhes o nome de coroa

 

honninghjerter

Honninghjerter – biscoitos fofinhos à base de mel com cobertura de chocolate. Muitas vezes são decorados com motivos natalícios, outras vezes com coisas aleatórias

 

Isto é só uma amostra da loucura de coisinhas doces que se tornaram tradicionais no Natal da Dinamarca. Prometo revelar muito mais, talvez em 2017.

O dia mais curto do Ano

Hoje é o dia mais curto do ano no hemisfério norte. O Solstício de Inverno traz boas notícias: o dia atingiu o seu mínimo de horas solares. Mais precisamente 6 horas e 42 minutos  em Aalborg, no norte da península da Jutlândia, Dinamarca. Não estamos assim tão mal de sol, este ano o Inverno tem sido generoso em dias luminosos, adiando os dias de chuva consecutivos para outra altura.

Ainda assim, esta diferença em relação a Portugal manifesta-se silenciosamente, e varia de pessoa para pessoa: podem sentir-se alterações físicas e psicológicas, cansaço e sono em excesso, falta de energia, ansiedade, mudanças de humor, ligeiro estado depressivo, entre outros.

Para evitar o modo de “todos me devem e ninguém me paga”, há que aprender a aproveitar cada réstia de sol, abrir as janelas e sair à rua quando possível. Exercício físico mantém o metabolismo em plena função e regula o cansaço e energia. Suplementos vitamínicos são também uma ajuda preciosa.

Gløgg, o sabor a Natal numa caneca

Uma das coisas em que me viciei nesta época foi o gløgg, a versão dinamarquesa do vinho quente, famoso em imensos países do norte da Europa.

Claro que não se trata apenas de vinho aquecido, tem todo um leque de especiarias e sabores que provocam um sentimento de conforto e felicidade.

Deixo aqui a receita para a felicidade instantânea (não, não se trata de alucinogénos ou substâncias psicotrópicas):

  • 1/2 laranjasodtoghyggeligt-post
  • 2 paus de canela
  • 2 estrelas de anis
  • 2 folhas de louro
  • 1/2 c. chá de grãos de pimenta preta
  • 1/2 c. chá de grãos de cardamomo
  • 1/2 c. sopa de cravinhos
  • 30g de açúcar mascavado
  • 2 1/2 copos de água
  • Garrafa de vinho tinto
  • Amêndoas em palito e passas para servir

Num tacho, junte todos os ingredientes excepto o vinho amêndoas e passas. Leve ao lume até ferver, baixe o lume e deixe cozinhar durante ca. 10 minutos. Retire do lume e deixe repousar a mistura por 2 horas.

Transfira para um novo tacho, escorrendo a mistura, e junte o vinho tinto. Aqueça lentamente até ca. 80ºc (não ferva). Pode juntar um pouco de whiskey, rum ou aguardente se preferir.

Sirva quente num copo / caneca com algumas amêndoas e passas, e acompanhe com biscoitos da época.

Camas e edredões

Como era de esperar, quando cheguei à Dinamarca enfrentei o desafio de mobilar uma casa para dois, o que incluiu as temidas viagens ao IKEA com o mais-que-tudo. Há quem diga que esse pode ser o derradeiro teste a uma relação (e à paciência de um homem), mas felizmente tudo correu tranquilamente (-ish).

Houve, no entanto, coisas que despertaram a minha curiosidade pelas diferenças em relação a Portugal (e certamente outros países). Uma delas foi as camas. Algo tão universal e comum revelou-se bastante diferente: enquanto pelo sul se utiliza uma cama com estrado madrase colchão por cima, por cá usa-se os boxmadras (colchão em caixa + pernas) que faz um tudo-em-um sólido e de difícil transporte. Por esta razão, é também comum que as camas de casal sejam duas camas de solteiro juntas (imagina agora subir 3 andares de escadas com uma cama de casal às costas). Claro que utilizei toda a influência e poder feminino para tomarmos a opção mais estranha na Dinamarca, o que me poupou alguns esforços e dores de costas. Também não me agradava muito a ideia de acordar algures afundada no meio da cama, em posições que nada abonariam para a coluna cervical, devido a ter dois colchões.

Outra coisa interessante é o uso de várias camadas de colchões: para além do colchão base, usa-se o topmadras (colchão com capa amovível, ca. 5 cm) para facilitar a limpeza, e por vezes ainda um fino acolchoado sob os lençóis. Ora aqui rendo-me: faz todo o sentido usar uma camada que consegues enfiar na máquina de lavar uma vez por outra, quando o rei faz anos.

Mas no meio disto tudo, o que me intrigou mais foi o comum uso de dois edredões individuais em vez de um, pelo que, mais uma vez, protestei. Onde está a magia de ter um homem a acordar a meio da noite cheio de frio, porque a namorada sequestra as cobertas durante o sono? E a conchinha? E o forno holandês?

Tradições de Natal na Dinamarca, v.2

Muitas velas e decorações DIY

Os dinamarqueses vivem intensivamente esta época, e para completar o set de acessórios obrigatórios na decoração do lar: para além dos já referidos Julekalender (calendários do Advento), encontramos também as Kalenderlys (velas-calendário) e a Adventskrans (coroa do Advento). Estes últimos são parte das tradições importadas, sendo a sua origem maior parte das vezes relacionada com a Igreja Luterana alemã.

Há uma coisa a salientar: tanto a Kalenderlys como a Adventskrans são tradicionalmente elaboradas em casa pelas famílias, com elementos naturais que as próprias fizeram o esforço de recolher no bosque mais próximo, ou simplesmente compraram num dos supermercados do costume. (Opção n.2 para mim)

Ora, isto leva-nos a um dos aspetos mais encantadores de toda a época: no meio de tanto consumismo e estratégias de marketing, estas tradições juntam as famílias à mesa numa tarde que se pode revelar bastante divertida (e, com sorte, com belos resultados). Os ingredientes para isto são geralmente:

  • Um tabuleiro para decorações (ou qualquer coisa que sirva de base)
  • 4 velas ou 1 vela com os 24 dias
  • Barro
  • Ramos de pinheiros (mas daqueles bonitinhos)
  • Pinhas, bolinhas e outros pequenos ornamentos

E com isto, é dar largas à criatividade:

  1. Sobre o tabuleiro, coloca-se um grande naco de barro (da forma que quiser colocar a ou as velas).
    Dica: o barro seca e às vezes é levado da breca para limpar – usa papel de alumínio ou película aderente se quiseres proteger o tabuleiro.
  2. Posiciona (ou espeta) no barro a vela como pretenderes, e certifica-te de que está bem fixa.
  3. Depois das velas, é hora de espetar os raminhos do pinheiro no barro.
  4. Com os raminhos colocados, só faltam os ornamentos e afins. Inspira-te aqui.

Por cá, tivemos uma tarde muito animada, cujo resultado final não ficou nada de se deitar fora.

julelys

Tradições de Natal na Dinamarca, v.1

Em Portugal diz-se Natal, em inglês Christmas, na Dinamarca chama-se Jul. O Jul é uma época muito celebrada na Dinamarca, mesmo num contexto em que a religião não tem uma presença tão forte. É tempo de estar com a família no aconchego do lar e praticar as várias (dezenas) de pequenas tradições e costumes que se iniciam por vezes no fim de Novembro.

Calendários do Advento

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Calendário Luterano com cenas religiosas

Os típicos calendários de chocolates que hoje se encontram em todos os supermercados têm origem na igreja Luterana alemã e remontam ao século XIX. Aliás, nada tinham a ver com chocolate.

Isto para introduzir uma grande tradição de Natal na Dinamarca: os adventskalender surgem de todas as formas possíveis e imaginárias –  de chocolates, de chocolates gigantes, de brindes e bugigangas, de produtos de beleza, de whiskeys, enfim. Ou pode optar-se por construir o seu próprio, uma vez que as lojas também oferecem uma panóplia alargada de saquinhos e caixinhas numeradas de 1 a 24. É impressionante ver a imaginação e variedade das diferentes marcas e lojas, mas o que é certo é que é uma tradição que cobre todas as idades e reúne a família.

Cá por casa decidi criar o meu próprio de raiz (dada a afluência de caixas do IKEA por aqui). Chocolates, prendas personalizadas, acessórios de pastelaria, um pouco de tudo para fazer o meu namorado guloso ainda mais feliz todos os dias.

Café

Baldes de café.

Onde quer que vá, é muito normal que oiça quer um café?. E dizer que não pode deixar uma má impressão. Sorte a minha, que adoro o sabor apurado, o aroma inconfundível e o conforto proporcionado por esse líquido quente e rico que desperta a alma.

Poderão dizer que não há nada como a bica portuguesa, aquele concentrado aveludado que se faz sentir como um estalo transcendente, um kick de energia instantânea. É verdade, é bastante diferente.

Aqui o café não é como a água suja que por muito sítio se vende a 2, 3, 4€. Não é de subestimar o sabor do café que se consome na Dinamarca, que, mesmo com uma quantidade de água consideravelmente maior, oferece um sabor forte e intenso. Por alguma razão o consumo de café na Dinamarca atinge os 5.3 kg per capita, enquanto que os valores em Portugal se ficam pelos 2.6 kg per capita (dados de 2013, Euromonitor).

Em suma, troquei o Delta por um litro diário de café de borra.