Carrinhos de Bebé na rua

Para alguém recém-chegado a estes lados, há coisas que nos deixam um bocado perplexos. Uma das coisas que mais me tem admirado é o modo de criar um filho, e isto mesmo desde o berço.

Nos meus primeiros tempos por cá, uma vez por outra via carrinhos de bebé à porta das lojas, sem qualquer preocupação por parte dos pais. Pensei: faz sentido, um carrinho destes ocupa muito espaço lá dentro, mais vale pegar o bebé ao colo e entrar. ‘Tá certo, parcialmente certo. Mais tarde apercebi-me de que também haviam carrinhos de bebés em varandas, à porta de casa, enfim. “?!?” – Pois, pelo que parece, os países escandinavos são tão naturalistas no que toca ao ser humano, que deixam as crianças dentro dos carrinhos a dormir na rua, onde o ar é fresco e mais saudável, mesmo que estejam 5 graus negativos. Nesse caso, usam mais umas camadas de roupa para evitar o frio em demasia.

E nós em Portugal a sofrer com 10 graus à noite. Pff.

Anúncios

Fogo-de-artifício

No outro dia liguei para a Polícia. Nada de especial, só para alertar que uns miúdos andavam a perturbar a calmaria das ruas, e a assustar as pessoas com bombinhas e estalinhos.

Parece que é prática comum comprar montes de artigos de fogo de artifício para festejar a época. Qualquer supermercado oferece uma extensa variedade de produtos, mas apesar de ser necessário ter 18 anos para poder adquirir estes artigos, muitos miúdos brincam pelas ruas com material explosivo. Contudo, consta que os acidentes registados são mínimos. No ano passado, foram identificadas duas vítimas mortais em todo o país devido a material defeituoso. Em 2004, uma fábrica de fogo-de-artifício no sul da Jutlândia foi destruída, resultando num dos maiores acidentes dos últimos tempos.

O que é certo é que toda a cidade se ilumina na Passagem de Ano, e dizem ser um espectáculo que vale a pena. Portanto, vós que estais na Praça do Comércio com dificuldades móveis e respiratórias devido à afluência de gente, vinde até ao norte e comprai o seu próprio kit de efeitos luminosos. Parece bastante mais divertido que procurar estacionamento durante 2 horas e sofrer de esmagamento dos dedos dos pés.

Como é o Natal de uma família Dinamarquesa?

Finalmente chegou. O tão aguardado dia, ou melhor, dias de Natal. A Consoada é o momento em família mais aguardado de toda a época, repleta de pequenas tradições e pratos especiais. E nos restantes dias (sim, porque o Natal se estende até ao dia 26 de Dezembro) o importante é aproveitar a vida.

No 24 de Dezembro, apesar de não ser feriado, maior parte das pessoas estão focadas nos últimos preparativos para apreciar a noite em família. Disse noite? Calma, maior parte das famílias encontram-se a meio da tarde e jantam às 18h, o que significa que se tivesses de esperar pela meia-noite para abrir os presentes haveria provavelmente umas sestas pelo meio e seria necessária uma segunda mesa de mostras gastronómicas.

julemadA mesa da Consoada é farta, e com uma grande variedade de carnes deliciosas, como por exemplo pato recheado e flæskesteg (na fotografia). Outras coisas como as salsichas frescas de nome medister, rolo de fiambre fumado, couve roxa, batatas com molho doce, molho castanho, e muitas outras delícias.

A sobremesa é algo muito especial: Ris à la mandebasicamente um arroz-doce com pedaços de amêndoa e natas, e cerejas em calda por cima. Especial pela tradição que envolve: algures na taça está uma amêndoa inteira; quem encontrar a amêndoa recebe um presente. Duplamente delicioso!

Surpreendeu-me o facto de vinho do Porto ser uma presença quase obrigatória na mesa após o jantar. Para além disso, é um presente muito comum e apreciado, pelo que encontro variadíssimas marcas e tipos à venda no mais comum dos supermercados.

sangChega a hora de reunir a família junto da árvore de Natal. Ainda existem famílias que celebram o Natal com uma tradição de origem religiosa: cantar canções de Natal à roda da árvore. Depois deste momento (que se pode tornar bastante divertido, especialmente com crianças ou adultos disparatados), distribuem-se os presentes.

Tak for mad, tak for gaven, tak for i dag, e assim se passou uma muito agradável primeira Consoada na Dinamarca.

Os dias 25 e 26 são em geral outro dia para reunir a família, desta vez ao almoço. Mais uma dose extraordinária de comida e hygge, pois nada está aberto para fazer compras (nem mesmo alguns dos maiores supermercados). No entanto, sair à noite no dia 25 tornou-se um hábito para as camadas mais jovens, que se juntam para jantares em casas de amigos e beber (muito). Faz sentido, visto que no dia 26 podem ressacar o dia todo.

 

Camas e edredões

Como era de esperar, quando cheguei à Dinamarca enfrentei o desafio de mobilar uma casa para dois, o que incluiu as temidas viagens ao IKEA com o mais-que-tudo. Há quem diga que esse pode ser o derradeiro teste a uma relação (e à paciência de um homem), mas felizmente tudo correu tranquilamente (-ish).

Houve, no entanto, coisas que despertaram a minha curiosidade pelas diferenças em relação a Portugal (e certamente outros países). Uma delas foi as camas. Algo tão universal e comum revelou-se bastante diferente: enquanto pelo sul se utiliza uma cama com estrado madrase colchão por cima, por cá usa-se os boxmadras (colchão em caixa + pernas) que faz um tudo-em-um sólido e de difícil transporte. Por esta razão, é também comum que as camas de casal sejam duas camas de solteiro juntas (imagina agora subir 3 andares de escadas com uma cama de casal às costas). Claro que utilizei toda a influência e poder feminino para tomarmos a opção mais estranha na Dinamarca, o que me poupou alguns esforços e dores de costas. Também não me agradava muito a ideia de acordar algures afundada no meio da cama, em posições que nada abonariam para a coluna cervical, devido a ter dois colchões.

Outra coisa interessante é o uso de várias camadas de colchões: para além do colchão base, usa-se o topmadras (colchão com capa amovível, ca. 5 cm) para facilitar a limpeza, e por vezes ainda um fino acolchoado sob os lençóis. Ora aqui rendo-me: faz todo o sentido usar uma camada que consegues enfiar na máquina de lavar uma vez por outra, quando o rei faz anos.

Mas no meio disto tudo, o que me intrigou mais foi o comum uso de dois edredões individuais em vez de um, pelo que, mais uma vez, protestei. Onde está a magia de ter um homem a acordar a meio da noite cheio de frio, porque a namorada sequestra as cobertas durante o sono? E a conchinha? E o forno holandês?

Café

Baldes de café.

Onde quer que vá, é muito normal que oiça quer um café?. E dizer que não pode deixar uma má impressão. Sorte a minha, que adoro o sabor apurado, o aroma inconfundível e o conforto proporcionado por esse líquido quente e rico que desperta a alma.

Poderão dizer que não há nada como a bica portuguesa, aquele concentrado aveludado que se faz sentir como um estalo transcendente, um kick de energia instantânea. É verdade, é bastante diferente.

Aqui o café não é como a água suja que por muito sítio se vende a 2, 3, 4€. Não é de subestimar o sabor do café que se consome na Dinamarca, que, mesmo com uma quantidade de água consideravelmente maior, oferece um sabor forte e intenso. Por alguma razão o consumo de café na Dinamarca atinge os 5.3 kg per capita, enquanto que os valores em Portugal se ficam pelos 2.6 kg per capita (dados de 2013, Euromonitor).

Em suma, troquei o Delta por um litro diário de café de borra.

Pipocas

Fui ao cinema no outro dia. Não foi a primeira vez que vi um filme numa sala de cinema com legendas incompreensíveis, tenho a dizer que é uma tarefa interessante para desenvolver skills linguísticos*.

Mas o que tenho a salientar de toda a experiência é o facto de não haver pipocas doces. Zero, em lado nenhum consigo encontrar pipocas doces. Gente, qual é o vosso problema?! Pipoca quentinha caramelizada acabada de fazer é como o Céu na Terra, com relativamente poucas calorias.

Fui forçada a dar uma chance às tão populares pipocas salgadas, e sentir os meus lábios a latejar num queixume anti-cloreto-de-sódio-em-excesso. E com isto, forçada a sorver um refrigerante para acalmar a cede. Mas para ver o Cumberbatch valeu a pena.

Afinal, pipoca salgada consegue ser bem gostosa

*nota mental: fazer o download das legendas de Westworld em Dinamarquês

De bicicleta para todo o lado

É conhecida a reputação dos países de norte quanto ao uso da bicicleta, e a Dinamarca não é exceção. Aliás, Copenhaga é considerada a capital da bicicleta, pelas mais recentes reformulações feitas no tráfego de carros e peões dentro da cidade.

Ao não ter carro e analisar o custo do transporte público, uma bicicleta foi um dos meus primeiros investimentos (logo a seguir às 3 viagens ao IKEA). Mesmo em 2ª mão, uma bicicleta custa cerca de 100€ + todos os acessórios necessários: luzes, obrigatórias, capacete, para informar os automobilistas de que sou uma aselha, e cadeado, para evitar desaparecimentos indesejados.

Numa cidade com índices de assaltos tão baixos, as bicicletas serão sempre um alvo fácil e muito apetecível, pelo que um dos primeiros conselhos que ouvi foi mesmo lock it, always.

A etiqueta e comportamento dos ciclistas parte do censo comum, hábitos e das regras não-escritas. De tudo o que aprendi na escola e nas aulas de código, pouco serviu para me sentir menos idiota a pedalar por aqui. A rede de ciclovias é extensa e bem cuidada, e o respeito pelos ciclistas é enorme. Contudo, há imensas regras para ambos os lados, e estas são para ser respeitadas. Mas esse é um assunto para outro dia.

Mas de tudo isto, o maior problema foi mesmo aprender a travar. Nunca jamais em tempo algum vi uma bicicleta com sistema de travões integrado nos pedais, pelo que quando não vi os manípulos dos travões a minha expressão foi de pânico e confusão.

Até à data, ainda não caí.