Contra-ataque Dinamarquês

Relativo às recentes notícias do Orçamento na Dinamarca, algumas das medidas aprovadas afetam diretamente os imigrantes – e não de uma maneira agradável. A Dinamarca é reconhecida como um dos países da UE com políticas de imigração bastante estritas, e o presente mandato de Lars Løkke Rasmussen pretende mesmo dificultar a entrada no país.

Em Janeiro deste ano, foram introduzidas várias medidas para travar o efeito da entrada de refugiados no país, dados os elevados valores de população a acorrer. Os 5 anos de residência no país antes de poder obter residência permanente passaram a 6, com condições cada vez mais estritas. Agora, quem quiser pedir residência permanente na Dinamarca precisa de esperar 8 anos, estar empregado 3.5 anos nos últimos 4 anos, abster-se de usar qualquer apoio monetário público nos últimos 4 anos, entre muitas outras condições (mais em The Local DK).

No caso de reunião familiar, um imigrante que venha para a Dinamarca trabalhar e queira trazer a família é obrigado a ter 3 anos de residência permanente até que o possa fazer, o que resulta numa soma de 11 anos de espera (pelo menos 8 anos de residência como estrangeiro + 3 anos após obter residência permanente).

Não me surpreende que o Governo queira controlo na população que entra no país: só em 2015 um total de 21,300 refugiados foram registados na Dinamarca, número que reduziu para 5,000 nos primeiros 8 meses de 2016 graças às medidas tomadas.

Vistos Gold? Não tens cá disso.

Água quente canalizada

Há uns tempos fiquei a saber que as casas são fornecidas por dois sistemas de distribuição de água: fria e quente. Realmente estranhei ainda não ter visto um acumulador ou qualquer outra fonte de aquecimento de água na casa, mas não imaginava que viesse por uma rede de canos infinitos, já aquecida.

E as perdas energéticas? E a eficiência? Acontece que cada cano tem uma camada de isolamento de pelo menos 10 centímetros (mais do que alguma parede em Portugal alguma vez verá), e não existe mistura de águas. A água que entra é utilizada para aquecimento e consumo em geral, o que significa que parte da água é recolhida pelo sistema de esgotos, e outra parte é recolhida pelo sistema de água aquecida, desta vez separada da água quente, para voltar a ser aquecida na central.

O consumo de cada casa é medido através da água utilizada e da temperatura de entrada e de saída da água. Diz-se ainda que se uma casa revelar leituras de temperatura de saída e entrada muito próximas poderá sofrer penalizações, uma vez que significa desperdícios de energia. Um sistema bem construído não permite a circulação de água quando esta não é utilizada, o que aumenta a eficácia de todo o sistema de distribuição.

Aqui, dentro de casa quase ando em t-shirt. Há um ano, estava em Lisboa a bater o dente cheia de frio. Podemos caracterizar esta situação: países desenvolvidos e países em desenvolvimento.

Bandeiras, bandeirinhas e bandeirolas

Das primeiras coisas que me chamou à atenção em territórios do Reino da Dinamarca foi a presença exaustiva de bandeiras por todo o lado. Quase todas as vivendas de campo têm um mastro no qual erguem orgulhosamente as cores da sua pátria, e mesmo em zonas urbanas, é difícil encontrar um ponto onde não se aviste uma única bandeira.

O nacionalismo é tanto que a bandeira se encontra em quase todas as formas possíveis e imaginárias: miniaturas, confetis, pratos e copos descartáveis, velas, bolos, roupas, decoração… Enfim, é algo que em Portugal só acontece quando a seleção nacional de futebol está perto que ganhar algum título.

Dannebrog (nome atribuído à dita bandeira) distingue-se pela sua longa existência, História e lendas que a acompanham. Reza a lenda que na batalha de Lyndanisse (Estónia) em 1219, os Danes enfrentavam uma derrota quase certa, não fosse a intervenção do Bispo e forças divinas: se este baixasse os braços, os soldados dinamarqueses perdiam a vantagem. Já com ajuda de terceiros, os braços do Bispo renderam-se à exaustão e a vantagem da batalha virou. Perto da derrota e sem réstia de esperança, cai do céu uma bandeira diretamente para as mãos do Rei, gesto que deu forças suficientes às tropas para vencer a batalha.

É um sentimento agradável, isto de sentir um compromisso com o seu próprio país e poder orgulhar-se disso. Para já, sou só uma “recém-chegada” de cabelos escuros e hábitos estranhos (beijinhos na cara?! que é isso?!), mas sempre que vou ao supermercado prefiro gastar duas ou três coroas a mais num produto nacional, como maior parte das pessoas aqui fazem.

Pipocas

Fui ao cinema no outro dia. Não foi a primeira vez que vi um filme numa sala de cinema com legendas incompreensíveis, tenho a dizer que é uma tarefa interessante para desenvolver skills linguísticos*.

Mas o que tenho a salientar de toda a experiência é o facto de não haver pipocas doces. Zero, em lado nenhum consigo encontrar pipocas doces. Gente, qual é o vosso problema?! Pipoca quentinha caramelizada acabada de fazer é como o Céu na Terra, com relativamente poucas calorias.

Fui forçada a dar uma chance às tão populares pipocas salgadas, e sentir os meus lábios a latejar num queixume anti-cloreto-de-sódio-em-excesso. E com isto, forçada a sorver um refrigerante para acalmar a cede. Mas para ver o Cumberbatch valeu a pena.

Afinal, pipoca salgada consegue ser bem gostosa

*nota mental: fazer o download das legendas de Westworld em Dinamarquês

J-dag: o dia em que “a neve cai”

E isto foi o que eu ouvi na semana passada. Celebrou-se o J-dag, o dia de novembro mais aguardado pelos bebedores de cerveja mais entusiastas. Às 20:59h de 4 de novembro de 2016, abriram-se as bicas natalícias, comemorou-se e bebeu-se, como em muitos outros dias, cerveja até cair para o lado. Resumidamente, é o dia em que a Tuborg lança anualmente a sua cerveja de Natal, conhecida pelo seu aroma especial e percentagem alcoólica acima do regular (5.6%).

Esta altura do ano é propícia a reuniões de amigos e conhecidos, com o intuito de festejar o espírito da época, e muitas (quase todas) das vezes isso envolve beber. Muito.

E a neve que era suposto cair? Era só Jajão.

De bicicleta para todo o lado

É conhecida a reputação dos países de norte quanto ao uso da bicicleta, e a Dinamarca não é exceção. Aliás, Copenhaga é considerada a capital da bicicleta, pelas mais recentes reformulações feitas no tráfego de carros e peões dentro da cidade.

Ao não ter carro e analisar o custo do transporte público, uma bicicleta foi um dos meus primeiros investimentos (logo a seguir às 3 viagens ao IKEA). Mesmo em 2ª mão, uma bicicleta custa cerca de 100€ + todos os acessórios necessários: luzes, obrigatórias, capacete, para informar os automobilistas de que sou uma aselha, e cadeado, para evitar desaparecimentos indesejados.

Numa cidade com índices de assaltos tão baixos, as bicicletas serão sempre um alvo fácil e muito apetecível, pelo que um dos primeiros conselhos que ouvi foi mesmo lock it, always.

A etiqueta e comportamento dos ciclistas parte do censo comum, hábitos e das regras não-escritas. De tudo o que aprendi na escola e nas aulas de código, pouco serviu para me sentir menos idiota a pedalar por aqui. A rede de ciclovias é extensa e bem cuidada, e o respeito pelos ciclistas é enorme. Contudo, há imensas regras para ambos os lados, e estas são para ser respeitadas. Mas esse é um assunto para outro dia.

Mas de tudo isto, o maior problema foi mesmo aprender a travar. Nunca jamais em tempo algum vi uma bicicleta com sistema de travões integrado nos pedais, pelo que quando não vi os manípulos dos travões a minha expressão foi de pânico e confusão.

Até à data, ainda não caí.

Cheguei, e agora?

Para todos aqueles que se relacionam com a Dinamarca de alguma maneira, quer por curiosidade, ligações diretas ou indiretas, deixo aqui um pouco das diferenças e semelhanças entre as minhas origens e este país de encantos diversos a norte da Europa.

Estas crónicas são o resultado de uma mudança de vida pouco planeada, nunca antes considerada, mas com uma forte razão: amor. Confesso que a parte mais difícil foi tomar a decisão de deixar Portugal e comunicá-la às pessoas que mais gosto. Deixar tudo com que sempre me relacionei, fazer as malas e partir com futuro incerto foi um passo que exigiu alguma coragem e horas de reflexão.

E agora? Longe daqueles com que partilhamos laços desde sempre, com os quais a comunicação e entendimento sempre foi natural, está na hora de trabalhar arduamente na chamada de integração. O conceito de integração num novo país é um assunto sério, que todos os que aceitam mudar para uma nação diferente devem considerar abraçar, em prol de uma vida em sociedade equilibrada e feliz. Este envolve aspetos como aprender a língua, conhecer o país e a sua história, descobrir as tradições e envolver-se com a vida em comunidade o máximo possível. Perceber os diferentes hábitos e fazer destes parte da nossa própria rotina é algo que nem sempre é fácil, mas tudo contribui para o sentimento de inclusão na sociedade.